sexta-feira, 8 de abril de 2011

Um minuto de silêncio


Ele é o do meio

         Passei esses dias pensando em como falar sobre perda. Aliás, sobre uma perda bem especifica que tive esses dias. Um tio dos bons! O Velho tio Josias foi-se embora.
A primeira ideia que me veio a cabeça foi a que ficou até hoje, por isso a ponho em prática agora. Pra falar do meu tio Josias eu decidi começar contando a história de um dos times mais vencedores de todos os tempos, o Carvalho Futebol Clube.


        Bom, é o seguinte: Lá em casa, no nosso computador, tem um jogo que eu adoro. É o Winning Eleven 9, um jogo de futebol qualquer, para a maioria, mas que pra mim se tornou especial por um motivo: Nele a gente construiu um time: o tal do Carvalho Futebol Clube. 
  
       Esse jogo te dá a oportunidade de fazer jogador a jogador. A gente pode construir a aparência, nele tem centenas de tipos de rosto, de cabelo, nariz, olhos... enfim. Pegamos esse jogo e fizemos o clube com os personagens da nossa família. A equipe era formada só pelos primos, irmãos, pais, tios ... até uma cachorra entrou no bolo.
  
    Com esse time nós ganhamos todos os títulos possíveis e tínhamos o melhor ataque que aquele computador já viu. Um desses artilheiros, claro, era o tio Josias. Fizemos ele com o mesmo cabelinho grisalho. Nas costas o apelido que é a cara dele : “Partileira”.
 
   E pior que o filho da mãe fazia cada golaço! É bem verdade que ele era reserva... mas na moral? Se fosse pra gente ser verdadeiro mesmo, o tio Josias não teria uma vaga nem como roupeiro daquele time. Pense em um perna de pau!
 
    Mas no PC nós fizemos um craque! Tinha um chute que mais parecia um cometa. Antes eu achava que tínhamos feito ele assim só porque queríamos ganhar tudo mesmo, mas hoje sei que não, fizemos ele assim porque era isso que ele era, tio Josias era um dos craques da nossa família. Batia um bolão, como dizem.

        Era um guri em campo (virtual) como era um guri na vida real. O tio Josias era um menino grande, como minha madrinha costuma dizer. Aliás, a esposa dele me contou uma história que retrata muito bem isso. Com essa história já dá pra perceber, meu tio era peça rara: "O Josias gostava muito de chuva. As vezes a gente tava dormindo e ele me acordava dizendo "Bem, tá ouvindo? Tá chovendo!" Aí eu morta de sono dizia, ta sim... Aí ele falava, todo animado "Vamo lá fora ver?" E iamos, nós dois. Ficavamos sentados na área, de madrugada. vendo a chuva bater no chão".

     Meu tio era assim. Um craque, era único. Era dos que fazem falta.
    Sabe quando vai ter um jogo importante e o craque do time se machuca e não pode jogar? “Put´z, vamos jogar sem o Ronaldinho?”. Era assim quando tinha alguma festa, algum encontro com a família e o velho Partileira não aparecia. O time não estava completo, não era a mesma coisa.

     Foram tantos jogos incríveis com essa família Carvalho. Ele marcou cada golaço, cada gol de placa.

     No ultimo dia 5 de abril o tio mais gaiato que esse mundo já viu pendurou as chuteiras. A camisa com o nome Partileira foi aposentada. Nosso time vai estar pra sempre desfalcado de um dos nossos melhores jogadores.
      
     Mas não é assim a vida? Agora o que nos resta é encher o estádio de bandeiras e cânticos em homenagem a ele, lembrar dos seus melhores lances, respeitar um minuto de silêncio..... e dar o ponta-pé inicial mais uma vez. Sei que é o que ele gostaria... Tenho certeza que ele deve estar fazendo piada no céu, uma hora dessas...

     Vai com Deus, tio.... ah, agora você vai poder ver a chuva quando quiser... é só pedir pessoalmente a São Pedro.
 

4 comentários:

Evelin Isabely disse...

Lindo, Will!

Comovente, esse é o minuto de silêncio em que as lágrimas rolam pela saudade, pela vontade de conhecer alguém tão especial! Um minuto de silêncio para aqueles que estarão durante toda a vida sendo vivenciados em nossa memória. A matéria se vai, a lembrança é a presença que nunca morre!

Isabela disse...

E acreditem, esse jogador era famoso de verdade! Já tinha fãs (como eu) que nunca o conheceram, mas que quiseram muito. Agora ele bate um bolão lá de cima, não se preocupe, meu amor.

Fabrício Franco disse...

Will,

Uma crônica daquelas de marcar o leitor. Quem nunca teve um 'Partileira' querido na família? Parabéns pelo texto e que mais outros venham!

Abraço,

Fabrício

Edna disse...

Não o conheci. Mas niguém fala sobre alguém com tanto carinho e tanta sensibilidade se esse alguém nao fosse especialmente grande. Me comoveu de verdade. Gosto de saber que existem e existiram pessoas assim, que marcam, que dizem a que veio, que fazem diferença, que usaram a vida que ganharam e nos presentearam com a sua presença.